Bom, estamos começando com esta postagem um novo blog para um ano que já está ficando velho. Sobre o nosso futebol mineiro não temos muito o que falar, a não ser fazer um balanço do desempenho de Cruzeiro e Atlético ao longo de 2010 e o desfecho da temporada. E é o que tentarei fazer aqui nessas linhas não tão nítidas quanto as quatro que delimitam o gramado.
Os grandes de Minas começaram o ano de 2010 com certa empolgação, alavancados pela temporada passada, onde o Atlético empolgou sua torcida durante grande parte do Brasileirão e o Cruzeiro tendo uma arrancada fantástica, culminando com a vaga para a Libertadores.
Os planos alvinegros eram ambiciosos. Primeiro com a vinda de Luxa, depois com o falado, discutido e lamentado projeto do treinador. Já as ambições azuis eram as mesmas, diga-se de passagem, há três temporadas. O Cruzeiro disputava novamente o torneio mais importante das Américas e com a sede de vingança pelo vice-campeonato em 2009.
No entanto, algo ficou no meio do caminho nessa passagem de ciclos. O Atlético tropeçou na própria sede de sucesso imediato e, na pior das hipóteses, faturou um título estadual num bom primeiro semestre. Mas, viu-se nitidamente a derrocada do alvinegro na segunda metade do ano. O time caminhava, a longos passos, não para o sucesso anunciado por Kalil e Luxemburgo, mas em direção a mais uma segunda divisão em sua história.
A cada derrota do Galo, um argumento novo era usado para amenizar a crítica situação entre comandante e comandados, a torcida começou a chiar muito tarde, afinal de contas o time tinha "o melhor treinador do Brasil" e o Campeonato Brasileiro chegando à sua reta final.
Diante da pressão da imprensa, que cansou-se de apoiar Luxemburgo, e da torcida que pedia por mudanças. Alexandre Kalil demitiu o manager e ainda contou com a sorte de ter disponível no mercado Dorival Júnior, este sim, um dos melhores treinadores da atualidade.
Na minha humilde opinião, aí foi onde o Atlético se safou de um destino quase que imutável, afinal de contas, a equipe teria de fazer um segundo turno digno de G4 para livrar-se do rebaixamento. E se não o fez, contou com a falta de bola daqueles que ficaram mais abaixo. Dorival Júnior fez o que Luxa não havia feito durante todo o ano. Botou a molecada em campo e, de quebra, revelou uma grande promessa no gol, Renan Ribeiro.
A volta de Obina também foi essencial ao time. O atacante deve ter salvado o Atlético em umas quatro ou cinco ocasiões decisivas, uma delas no clássico e indiretamente contribuindo para que o Cruzeiro não chegasse ao título.
Enfim. Para o Atlético o que restou foi um 13o lugar, 13 de galo, e um alerta para que não se cometam os mesmos erros deste ano. Para 2011, o time tem treinador, mas não tem um elenco e muito menos uma sólida base. O resta ao Galo são boas peças como Réver, Tardelli e Diego Souza, mas mesmo com a recuperação o time não tem cara de time.
É inegável o avanço com Dorival, mas a fragilidade do Atlético ainda é grande e muito precisa ser melhorado. A derrota na partida final do Campeonato Brasileiro por 4 a 0 para o São Paulo foi retrato da apatia da equipe com o final melancólico de temporada, mas ela é também o retrato de um time superestimado e que não fez tudo aquilo que poderia fazer. A torcida vai precisar de paciência e a diretoria de competência para acertar o alvinegro no ano que vem.
Já o Cruzeiro foi vítima do comodismo. O clube reagiu em 2009 após a perda da Libertadores e se classificou para o torneio deste ano na última rodada do Brasileirão, deixando, inclusive, o Galo fora da parada. No entanto, pouco foi feito no primeiro semestre de 2010 para que o time viesse mais forte. Pelo contrário, o Cruzeiro deste ano era um time mais fraco que no recente passado, por ter perdido importantes peças que caracterizavam a espinha dorsal do esquema de Adilson Batista.
A diretoria dos Perrelas seguiu contratando para a Libertadores na velha política da barganha, que muitas vezes dá errado. Traz atletas a preço de banana e paga caro lá na frente. Dessa vez o time pagou caro logo no primeiro semestre. Adilson Batista esqueceu-se do Mineiro, deu de presente ao Atlético, e o Cruzeiro despediu-se do Estadual, ainda nas semifinais, tomando uma bela sova do Ipatinga em pleno Mineirão. Entretanto, nada podia abalar a confiança da torcida celeste, que ainda acreditava no tri da Libertadores, mesmo tendo consciência do time fragilizado. A esperança ainda era depositada em Kléber, por exemplo, um dos que pouco correspondiam em campo.
O que se percebeu logo após a eliminação para o São Paulo nas quartas-de-final da Libertadores foi que o Cruzeiro pouco tinha de diferente. O jogo de Adilson Batista já estava manjado pelos adversários e o time só se dava bem em ocasiões onde contava com contragolpes, graças à velocidade pelos flancos. No entanto, os grandes já sabiam de cor e salteado o estilo celeste de jogar. Um time recheado de volantes e sem criatividade no meio de campo, facilmente era parado.
Após a eliminação na Libertadores e a parada para a Copa do Mundo, o Cruzeiro fez o que o Atlético não fez. Agiu. Neste grande período de preparação no mês de Julho, a diretoria deu fim ao trabalho de Adilson e apostou em Cuca, questionado por grande parte da imprensa e torcida, principalmente pelo fato de ser “azarado”.
Azarado ou não, Cuca fez seu papel muito bem feito. Pegou um time baqueado e desacreditado, que estava na parte inferior da tabela do Campeonato Brasileiro e, gradativamente, foi dando moral ao elenco. Os Perrelas contrataram jogadores neste período, algumas indicações de Cuca e apostas da diretoria. Muitas continuaram sendo apenas contratações e não mostraram brilhantismo algum como Farías e o terrível Robert, indicação de Cuca.
Mas o mérito do Cruzeiro se deveu a uma figura em especial, o argentino franzino Montillo, vindo da Universidad Chile, que fora eliminada nas semifinais da Libertadores. O meia diferenciado, comparável no Brasil apenas ao seu compatriota Conca do Fluminense, deu nova cara e dinamismo ao meio de campo do Cruzeiro. O time ganhou em criação e se tornou um verdadeiro perigo atacando pelo lado direito do campo, por onde Montillo aparecia com mais frequência, contando com a velocidade de Thiago Ribeiro.
A torcida carente, logo encontrou alguém para chamar de ídolo. Em poucas rodadas e partidas excepcionais, Montillo já havia caído nas graças da China Azul. Embalado, o time crescia de produção, subindo na tabela a cara rodada. A equipe desacreditada voltava a ganhar jogos importantes, a maioria de 1 a 0, mas não deixando de ser 3 pontos a mais. O resultado da reação refletiu-se na tabela. O Cruzeiro fez uma das melhores campanhas do segundo turno, chegando a liderar por duas rodadas o Brasileirão.
No entanto, algo ainda era notório. O Cruzeiro continuava sendo um time sem poder de decisão, muito pela falta de pontaria dos atacantes e por desatenção. Isto certamente fez com que a equipe ficasse mais uma vez no quase este ano. O Cruzeiro perdeu jogos decisivos e pontos preciosos. Ao meu ver, na pior das ocasiões contra o Atlético na derrota por 4 a 3. O Cruzeiro atacou mais, criou mais oportunidades, mas não matou o jogo. Enquanto o Galo foi fatal em quatro chances, não desperdiçando suas oportunidades. Ali, naquele jogo, o Cruzeiro mostrou sua principal falha, a falta de foco durante todos os 90 minutos. Um time com anseios de ser campeão não pode levar 3 gols em 30 minutos de partida, ainda mais num clássico.
Enfim, uma discussão mais aprofundada sobre estes aspectos ficaria para uma outra postagem, mas o que dá para salientar sobre o Cruzeiro foi a reação de um time abatido, que felizmente chegou ao honroso vice-campeonato brasileiro, deixando para trás o protegido Corinthians na última rodada. Se o título não veio, essa vingança deu um sabor todo especial ao segundo lugar conquistado pelo time.
Para 2011, o Cruzeiro precisa com urgência de atacantes. Não em número, mas em qualidade. Pelo menos dois que sejam diferenciados, porque se não o futebol mineiro pode ficar mais uma vez no quase, como em 2010. E o que queremos para nossos times é um bom rendimento, sem contratações mirabolantes, sem cartolas em foco, querendo aparecer mais que a instituição. A torcida quer ver futebol acima de tudo.
Que em 2011, Atlético e Cruzeiro aprendam com os erros de agora e conquistem destaque na imprensa pelo bom futebol. Se os times evoluírem com o que mostraram ao final deste ano as chances de sucesso são grandes, mais para o Cruzeiro, é verdade. Mas tempo é o que os grandes de Minas têm agora, e seria realmente maravilhoso ver Galo e Raposa rivalizando de igual para igual, fazendo inveja no eixo RJ e SP, no ano que vem.